terça-feira, 1 de agosto de 2017

"When I was in junior high and high school, I had this friend of mine, and we'd always try to write the most disgusting thing we ever could, we'd always switch off every other sentence, we'd sort of fill in where the other left off and try to gross each other out" - Trey Parker and Matt Stone, "The tale of scrotie mcboogerballs - Commentary"

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Vi o filme de South Park por acaso quando eu tinha uns 10 anos (alguém deixou a TV ligada na HBO) e fiquei fascinada. Eu nunca tinha visto nada tão ~iconoclasta~, irreverente, piadista, criativo, ousado. Desde então virou um dos meus filmes preferidos.

Algumas semanas atrás tentei mostrar para um amigo e, quanto mais eu procurava alguma cena que ia fazer ele morrer de rir e gostar do filme tanto quanto eu, mais eu percebia que não tinha praticamente nenhuma cena assim. O filme não era tão engraçado. Pareceu engraçado quando eu era uma pirralha e fiquei impressionada com a edgyness da coisa toda, mas, no fim das contas, era só ok. Ousadia não faz um bom filme. Precisa de alguma dose de criatividade e de sinceridade.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Truísmos da Jenny Holzer

JENNY HOLZER

A Jenny Holzer é uma artista conceitual que, no final dos anos 70, escreveu várias frases curtas, imprimiu-as em papel e colou por vários lugares de Nova York, anonimamente. Essas frases normalmente são bem objetivas e expressam visões de mundo bem abrangentes, e às vezes bem fora do senso comum. Alguns exemplos:

Abuse of power comes as no surprise
Freedom is a luxury not a necessity
Hiding your emotions is despicable
A lot of professionals are crackpots
Your oldest fears are the worst ones
Looking back is the first sign of decadence and decay
If you can’t leave your mark give up

(O resto das frases está disponível aqui)

O que a Jenny Holzer fez não era completamente novo na época: pichações sempre foram comuns, afinal, e a China tem uma tradição bem parecida que é a dos dazibaos, cartazes anônimos com mensagens curtas colados nos muros públicos. Mesmo assim, acho que a coisa mais interessante nesses truísmos é a generalidade das afirmações e a falta de contexto, pelo menos na primeira publicação deles. Também tem o fato de que eles não são todos coerentes entre si e tem algumas opiniões extremamente minoritárias – opiniões que, num contexto normal, alguém teria que justificar amplamente se fosse revela-las em público. Mas quando a frase fica solta assim, sem muito contexto, é muito mais tranquilo simplesmente tentar analisá-la pelo que ela quer dizer, em vez de armar mil e uma defesas para provar que você nunca concordaria com um absurdo desses.

Outra coisa que eu curto bastante nesses truísmos é o exercício de pegar a frase já pronta e elaborar em cima, em vez de fazer um longo raciocínio para só depois chegar numa máxima. De certo modo, acho que a Jenny Holzer antecipou a cultura do Twitter e dos memes, em que as máximas – e, portanto, os consensos – não são passados de geração em geração, e não são elaborados coletiva e hierarquicamente (pelos “sacerdotes” da produção de cultura de determinada época, como religiosos, intelectuais, artistas, professores e celebridades). Ao contrário, é um processo extremamente fragmentado, em que as máximas (os memes) aparecem primeiro e a elaboração é feita depois, pelo próprio leitor. Nesse mundo, a formação intelectual é bem diferente do que foi na geração dos meus pais ou até na minha geração. A nível macro, ainda não dá para saber se as consequências disso vão ser boas ou ruins (se bem que a onda conservadora generalizada – Trump, Duterte, brexit – pode ser um sinal negativo). De qualquer modo, eu pessoalmente gosto muito dessas frases, e provavelmente vou continuar revisitando-as periodicamente por um bom tempo.

domingo, 7 de maio de 2017

Confiança

Quando se diz "eu confio em você", normalmente se quer dizer "eu acho que você será leal a mim", ou melhor, "eu acho que você nunca trairia a minha confiança intencionalmente".

Mas há outro aspecto da confiança muito importante e pouco explorado nas relações afetivas, que é o de acreditar na capacidade (técnica) do outro. Nos pequenos favores e conselhos que amigos trocam entre si (grandes, quando se trata de familiares), não basta acreditar que o outro não trairia a sua confiança. É preciso acreditar que ele seja capaz de dar aquele conselho ou prestar aquele favor. É preciso confiar em sua capacidade, inteligência ou sagacidade. Ou até mesmo em seu nível de informação: é inútil pedir ajuda a um amigo que simplesmente não tem informações suficientes sobre a situação para opinar. Por exemplo, o amigo mais leal não pode te ajudar a estudar cálculo, se for leigo em matemática.

Nesse sentido, não há nada de errado em desconfiar de amigos e pessoas próximas. Não há nada de errado em recusar a ajuda deles, não há nada de errado em preferir tomar decisões independentemente, mesmo que o risco de errar seja grande. Pelo contrário: é importante perceber as falhas e limitações de seus amigos. É importante perceber a diferença entre proximidade afetiva e inteligência (no sentido de "capacidade de perceber a realidade objetivamente"). E mesmo que não haja motivo nenhum para acreditar mais em si mesmo do que nos outros, é importante testar as próprias decisões e cometer os próprios erros.

Então, não há motivo para ter pudor em dizer "eu te amo, mas não confio em você para isso". O amor não deixa de ser verdadeiro, e a confiança no sentido afetivo permanece intacta. Quem ouve uma frase dessas não deve se sentir ofendido. Pelo contrário: seu amigo não estaria sendo leal se aceitasse sua ajuda mesmo sem confiar em você. Estaria mentindo, te enganando, estaria traindo sua confiança no sentido afetivo.

Algumas tarefas e decisões têm que ser feitas individualmente, e benditos sejam os amigos que conseguem respeitar isso.

domingo, 23 de abril de 2017

“Everybody knows there’s something wrong with them—they just don’t know what it is. Everybody wants confession, everyone wants some cathartic narrative, especially the guilty. Oh, but everybody’s guilty.” - True Detective
"Dead Poets Society... is far less about Keating than about a handful of impressionable boys" - Vincent Canby, crítico do The New York Times

sábado, 11 de março de 2017

And you, well, you're american
Self-important, boiling over
To prove that she must still exist
She moves herself about her fist
And won't ever never give a shit
About all those words you're wasting

To gain some pretty, bright and bubbly
Wondrous dream you'd like to kill and cling and claim her as your own
But don't you worry
All those dainty and dirty
Emotions just go away
And fade out on their own

Neutral Milk Hotel - Oh, Sister

segunda-feira, 6 de março de 2017

"— Não quero te assustar — ele disse — mas vejo você, com toda a clareza, morrendo nobremente, de uma forma ou de outra, por uma causa qualquer absolutamente indigna.

Me olhou de um jeito engraçado.

— Se eu escrever umas palavras para você, promete que vai ler cuidadosamente? E guardar?

— Prometo, sim — respondi. E era verdade. Até hoje guardo o papel que ele me deu.

Foi até a escrivaninha, no outro lado da sala, e escreveu alguma coisa num pedaço de papel, sem se sentar. Aí voltou e se sentou, com o papel na mão.

— Por estranho que pareça, isso não foi escrito por um poeta. Foi escrito por um psicanalista chamado Wilhelm Stekel. Aqui está o que ele... você ainda está me ouvindo?

— Claro que estou.

— Aqui está o que ele disse: 'A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa'."


O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger